Monday, May 21, 2012

Yodea


Quando conhecemos uma pessoa o bastante (suficiente parece-me uma má palavra, o que é isso de ser suficiente, odeio quando me dizes enough, cheira-me a not really what I wanted but I can do with that ...) sabemos o que lhe faz click. Mesmo quem lhe faz click. Por vezes antes de ela o saber.

Essa consciência nossa do outro é um tanto ou quanto perturbadora porque podemos sentir-nos a viver duplamente. Que desagradável.


Entretanto, o outro sente o mesmo em relação a nós.

Eu entrei e vi-o, de costas, e nada. Mas havia qualquer coisa perturbadora, julgo que o aroma, agora que analiso as coisas, e esse aroma nada tem a ver com perfumes, era o aroma natural da pele, tão parecido com o aroma primordial. Reparei, fechando os olhos (reparei fechando os olhos?!) na linha entre o pescoço e a gola de um pólo muito coçado e ele disse qualquer coisa que deve ter sido importante mas que não recordo mesmo nada - apesar de eu ter respondido com absoluta exactidão.


Então, olhei-o nos olhos e ele disse qualquer coisa sobre o trabalho de polimento (o trabalho de polimento!) e lembro-me disto porque eu estava a fazer um grande esforço para não dar a entender que já estava sem força, que era uma questão de duas canções. E fingir que não estou interessada é mesmo o que faço melhor, ah sim, o trabalho de polimento, julgo que em dois dias o móvel antigo estará como novo, sim senhor Bertorelli.


Mas esta farsa não funciona para aquele que dorme comigo e me conhece infinitamente melhor, que já viu o querer disfarçado de não querer por capricho da volúpia e já viu o não querer disfarçado de querer por doação costumada. Riu-se com o seu humor superior e puxou-me o braço e disse exactamente as palavras certeiras com a segurança do costume.



Foto: Hugo Dias, "a curva"





Alguns anos passados e ela vê que chegou de novo ao mesmo lugar. 


São os mesmos sons e os mesmos silêncios, as mesmas ausências e as mesmas presenças sem nexo, a mesma corrente marítima agreste.


 Mas uma pessoa não é um caranguejo, recusa-se a andar para trás; 


ela que foi um dia presa numa armadilha de luz. 


- sai como peixe esquivo ou fecha-se como concha (?) 







Tuesday, May 15, 2012

Before sunrise?... The rehearsal and the play


Many years ago, a cameraman that lived with me shot a scene that happened to be a beautiful sunset. But in the movie he was making he needed the scene to be a beautiful sunrise... So he spent hours troubling himself about whether people would notice if those 15 seconds were a sunset and not a sunrise. They didn't. Well, most of them didn't. But he couldn't help wandering about it. And I, for one, also wandered about how begginings and ends are, in a way, so familiar and have so much in common.

Do I know if I am doing the right thing? Am I entitled to judge what is the best decision, even with my camera lenses all ready and sharp?


How can I be so sure of what is right in the long run, when the plain fact is life is both the rehearsal and the play? There is no second chance whatsoever. The deed is done.

Friday, February 10, 2012

Pasta de Arquivo




A semana passada, ocorreu-me um pensamento que, teimosamente, não me largava. Aconteceu quando vi uma secretária, muito profissional na sua função, a catalogar pastas de arquivo. Sou de natureza observadora e não consigo evitar fazer ligações entre as coisas, quase intuitivamente. Foi assim que me veio à mente a ideia, talvez tonta e despropositada, talvez pirosa e sentimental, mas o certo é que cá continuava: em que pasta de arquivo estaria eu guardada?

E foi assim que, quando entrei na reunião, já tinha colocado em segundo plano o motivo inicial da mesma. Já, quase inconscientemente, procurava no meu interlocutor sinais que me permitissem descortinar qual era a minha etiqueta, qual era, enfim, o rótulo com que me tinham colocado na estante arrumada. Seria eu um “protocolo”? Seria uma “entrada”? Se sim, para onde? Ao certo, o que queriam dizer essas palavras no léxico destas pessoas?

“Está incomodada?” perguntou-me o senhor, decerto admirado com a minha postura aflita e tão diferente do ar reservado e levemente distante que tenho (quase) sempre no trabalho. Que não, estava distraída mas já voltara a mim. “Não é seu costume…”

Mas a ideia não me deixava. Alastrava, tomava forma. Vim para casa a pensar em que pasta de arquivo me guardariam as pessoas de cuja vida deixei de fazer parte. Aqueles cujos projectos profissionais já foram também meus e dos quais me retirei, aqueles que moram ainda nos países e locais onde já vivi, aqueles que já foram meus alunos, aqueles que já foram meus vizinhos, colegas de escola, amigos de todos os dias e de todas as horas, aqueles que dividiram comigo casa e outros que dividiram cama, aqueles a quem mudei fraldas um dia apesar de não ser muito mais velha do que eles, aqueles que já não são.

Onde me guardam? Para onde fui depois da pasta de arquivo “saída”? Ou fiquei nos “pendentes”?

E, nessa noite, sozinha em casa com o meu pequenino e os felinos, comecei a fazer o perigoso jogo de adivinhar o que pensariam os outros das suas memórias. Só me dei conta da inutilidade de tudo isto quando o meu pequenino, que tinha colocado as orelhas de Mickey na cabeça e cuja capacidade de comunicar é (mesmo sem elas!) reduzida, veio dar-me um abraço, pôs a cabeça nas minhas pernas e disse, muito inesperadamente e com todas as letras: “Mãe, eu quero ficar contigo.”

Não posso perder tempo com arquivos quando tenho a vida entre as minhas mãos. 

Tuesday, October 12, 2010

Note to (your)self

Inesperadamente, às vezes, temos uma conversa de horas e tão interessante com alguém!!! Descobrimos, subitamente, com um prazer inesperado, um amigo.

Depois, encontramo-lo outra vez, passados uns dias e vamos retomar o fio, mas vemo-lo tão atrapalhado com a anterior revelação de si próprio (ou a nossa?) que nos sentimos, sem razão nenhuma, como uma rapariga tonta a tentar puxar um desinteressado após uma one-night stand. "Foi bom enquanto durou"??

Espécie de remorso por nos termos dado a conhecer, de vergonha por termos ouvido e acalentado da caixinha de vida e de segredos dele, de estúpida culpa por guardarmos a ideia de uma amizade que parecia tão certa na ordem do Universo, tão espontaneamente traçada, tão unificadora.

Perder um amigo é uma sensação pior do que perder um amante.

Recordo-me sempre que os Antigos Gregos tinham apenas uma palavra para dizer "coragem" e "homem" - Andrea, ironicamente. Hoje, nunca seria possível falarmos de Coragem e de Homem numa só palavra.

Wednesday, January 28, 2009

A Year of Change





The stars' whirlpool has made amazing changes in my life last year, and it also changed my name, without planning or warning, from Caiê to Mummy.
We shall all probably need some adjusting to our new life, made "of spirit, and fire and dew".
Caiê is now writing for a greater love.

















Saturday, January 5, 2008

So long, Farewell...


"The sagest time to dam the sea is when the sea is gone"

Emily Dickinson

Este blog vai ficar paradito por uns tempos, porque vamos navegar novamente.


Abraços e até Fevereiro (mais corrente, menos ventania!)

Foto: Hugo Dias