Essa consciência nossa do outro é um tanto ou quanto perturbadora porque podemos sentir-nos a viver duplamente. Que desagradável.
Entretanto, o outro sente o mesmo em relação a nós.
Eu entrei e vi-o, de costas, e nada. Mas havia qualquer coisa perturbadora, julgo que o aroma, agora que analiso as coisas, e esse aroma nada tem a ver com perfumes, era o aroma natural da pele, tão parecido com o aroma primordial. Reparei, fechando os olhos (reparei fechando os olhos?!) na linha entre o pescoço e a gola de um pólo muito coçado e ele disse qualquer coisa que deve ter sido importante mas que não recordo mesmo nada - apesar de eu ter respondido com absoluta exactidão.
Então, olhei-o nos olhos e ele disse qualquer coisa sobre o trabalho de polimento (o trabalho de polimento!) e lembro-me disto porque eu estava a fazer um grande esforço para não dar a entender que já estava sem força, que era uma questão de duas canções. E fingir que não estou interessada é mesmo o que faço melhor, ah sim, o trabalho de polimento, julgo que em dois dias o móvel antigo estará como novo, sim senhor Bertorelli.
Mas esta farsa não funciona para aquele que dorme comigo e me conhece infinitamente melhor, que já viu o querer disfarçado de não querer por capricho da volúpia e já viu o não querer disfarçado de querer por doação costumada. Riu-se com o seu humor superior e puxou-me o braço e disse exactamente as palavras certeiras com a segurança do costume.
Foto: Hugo Dias, "a curva"





